Mãe que inventou dispositivo para gastrostomizados na BA trocou curso de humanas pela área de saúde após nascimento do filho
30/07/2026
(Foto: Reprodução) Nilza Carla Leal e os filhos
Arquivo Pessoal
A baiana que criou um absorvente dérmico para ajudar gastrostomizados, inspirada nas necessidades do filho, trocou um curso de humanas pelas áreas da saúde e ciências, após o nascimento do jovem.
Inicialmente, Nilza Carla Leal tinha o objetivo de aprender a cuidar melhor de João Pedro, nascido com paralisia cerebral. Depois, passou a pensar também no dispositivo para diminuir sofrimento dele.
O jovem, que hoje tem 20 anos, convivia com constantes internações, por causa dos ferimentos que sofria em decorrência da gastrostomia à qual foi submetido quando ainda era bebê.
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O procedimento insere uma sonda no estômago para que os pacientes sejam alimentados e receberam medicamentos. A ação é uma alternativa para a sonda nasal, que normalmente é indicada a pessoas que precisam se alimentar dessa forma por um período curto de tempo.
Inventora de absorvente dérmico estudava durante internações do filho na BA
O problema é que o local onde é feita a incisão no estômago precisa de atenção constante, pois ferimentos podem se formar com o vazamento de líquidos e/ou atrito da sonda com a pele.
Foi ao ser acusada de maus-tratos por causa desses ferimentos que a pesquisadora se viu na necessidade de buscar capacitação e, posteriormente, uma solução para o problema. Assim nasceu o JO+, dispositivo que oferece proteção à pele, higiene e qualidade de vida para pacientes e cuidadores.
Mãe estudava durante internações
Antes do nascimento de João Pedro, Nilza Carla estudava administração. A mudança de área só aconteceu em 2009, quando começou a formação em técnica de enfermagem.
Um ano depois chegou a interromper o curso, pois não tinha quem olhasse o filho enquanto assistia às aulas, mas conseguiu concluir.
Em seguida, iniciou o curso de Biologia. A formação aconteceu em 2015, sem direito a formatura. A inventora lembra que João Pedro estava internado no dia do evento.
Durante as formações, a baiana usava todo o tempo que tinha livre para estudar, incluindo enquanto acompanhava o jovem no hospital. Para isso, Nilza Carla carregava sempre livros e apostilas a tiracolo. Hoje, ela é pesquisadora, técnica de enfermagem, bióloga e está cursando um mestrado.
Baiana criou dispositivo para proteger pacientes colostomizados
Arquivo Pessoal
Diagnóstico no nascimento
Quando o jovem nasceu, a mãe tinha 27 anos. Até o parto, João Pedro seria uma criança típica. Foi a demora no nascimento que, segundo Nilza Carla, provocou a paralisia cerebral.
"Nós identificamos algo logo no início. Ele tinha dificuldade na amamentação e tremia muito. No mesmo dia do parto, a médica recolheu ele do meu colo e levou pra UTI [Unidade de Terapia Intensiva] neonatal da maternidade. Só depois de cinco meses que veio o diagnóstico de paralisia cerebral", contou.
"Para mim, foi tudo tranquilo, porque eu queria ter um filho. Quando você tem uma festa de aniversário, você não cria expectativa se você vai ganhar presente ou não dos seus convidados. Se vier um presente, ótimo, se não vier, está tudo bem. Então, eu só queria ter um filho para poder ter uma família", destacou.
Conheça o JO+
O absorvente dérmico foi criado por Nilza Carla como um alternativa adequada para substituir meios já usados atualmente na medicina, como gazes e adesivos.
"O objetivo é cobrir a pele, evitar o atrito do aparelho e, antes do suco gástrico tocar na pele, ele absorve, e muda de cor à proporção que ele vai absorvendo. Assim, a pessoa vê o momento de troca", destacou a baiana.
O processo de elaboração do dispositivo começou em 2016. Ao longo desses 10 anos, foram feitos protótipos e testes em campo, além da oficialização da patente. Nesse processo, João Pedro e mais três pessoas já usaram o JO+.
O equipamento foi batizado com esse nome, em homenagem ao filho de Nilza Carla e em referência aos outros pacientes que podem ser ajudados.
Material importado
Absorvente dérmico foi criado na Bahia para evitar ferimentos em pacientes gastrostomizados
Arquivo Pessoal
Durante os estudos de concepção do absorvente dérmico, a pesquisadora chegou à escolha de uma substância flexível, chamada poliuretano, para matéria-prima.
O material veio da China, por intermédio de um amigo brasileiro que vive no país. Porém, apesar ter importação, o custo de produção do JO+ por unidade é de R$ 4,90.
Nilza Carla pontua que gastrostomizados podem chegar a precisar de seis absorventes por dia, dependendo das necessidades do paciente.
Atualmente, a pesquisadora busca por financiamento para iniciar a produção em escala e a comercialização. Os projetos para o futuro incluem a construção de uma fábrica para que possa fazer sua própria matéria-prima, o que iria tornar o dispositivo mais barato.
"Hoje, o que dificulta o JO+ estar no mercado é que os editais que nós participamos têm um critério de faturamento anual de R$ 100 mil. E a gente ainda não fatura porque a gente ainda não vende. Isso desclassifica a gente, isso faz com que a gente fique batalhando com amigos, porque a gente tem que pagar patente todo ano, tem que pagar CNPJ, e eu não tenho esse recurso".
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